DRE: o que é e como fazer a demonstração do resultado
A DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) é o relatório contábil que mostra se a empresa teve lucro ou prejuízo no período, partindo da receita bruta e descontando deduções, custos, despesas e tributos até chegar ao lucro líquido.

O que é DRE: o relatório que explica como a receita do período virou lucro ou prejuízo
A sigla DRE significa Demonstração do Resultado do Exercício, também chamada de demonstrativo de resultado. É uma das demonstrações contábeis obrigatórias e responde a uma pergunta: quanto a empresa ganhou ou perdeu num período, e em que etapa o dinheiro faturado ficou pelo caminho. Em inglês, o relatório é o income statement, ou P&L (profit and loss).
Diferentemente do extrato bancário, a DRE segue o regime de competência: a receita entra no mês da venda e a despesa no mês em que é incorrida, independentemente de quando o dinheiro entra ou sai. Por isso a DRE mostra desempenho econômico, enquanto o caixa mostra liquidez.
DRE na contabilidade: a Lei 6.404/1976 define sete grupos de informação e o CPC 26 detalha a apresentação
A base legal da DRE é a Lei 6.404/1976, a Lei das S.A. O art. 176 inclui a demonstração do resultado do exercício entre as peças que a diretoria elabora ao fim de cada exercício, ao lado do balanço patrimonial. O art. 187 lista o que ela discrimina, em sete incisos: receita bruta e deduções; receita líquida, custo e lucro bruto; despesas operacionais; resultado operacional e outras receitas e despesas; resultado antes do imposto de renda; participações; e lucro ou prejuízo líquido. O §1º fixa a competência: entram as receitas ganhas no período, independentemente da realização em moeda, e os custos correspondentes.
A obrigação vai além das S.A. O Código Civil (art. 1.179) obriga o empresário e toda sociedade empresária a levantar anualmente o balanço patrimonial e o de resultado econômico. Só fica dispensado o pequeno empresário, que a LC 123/2006 (art. 68) define como o empresário individual com receita na faixa do MEI. O Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1) completa a lei com as regras de apresentação, como os itens mínimos e a opção de classificar despesas por função (vendas, administrativas) ou por natureza (pessoal, depreciação).
A partir de 2027: a Resolução CVM 237/2025 torna obrigatório o CPC 51, alinhado ao IFRS 18, para companhias abertas nos exercícios iniciados a partir de 1º de janeiro de 2027. Ele substitui o CPC 26 e reorganiza a DRE em cinco categorias: operacional, de investimento, de financiamento, tributos sobre o lucro e operações descontinuadas, com subtotais obrigatórios de lucro operacional e de resultado antes de financiamento e tributos.
Estrutura da DRE: cinco degraus levam a receita bruta ao lucro líquido, e no exemplo só R$ 7,50 de cada R$ 100 faturados sobram
A forma mais útil de ler a estrutura da DRE é em cinco degraus. Cada degrau tira uma parte da receita e termina num subtotal, e cada subtotal dividido pela receita líquida vira uma margem. A tabela aplica a estrutura a uma empresa ilustrativa com faturamento bruto de R$ 10 milhões no ano.
| Degrau | Linha da DRE | R$ mil | % da receita líquida |
|---|---|---|---|
| 1 | Receita bruta de vendas e serviços | 10.000 | |
| 1 | (-) Devoluções, descontos incondicionais e tributos sobre vendas | (1.500) | |
| 1 | (=) Receita líquida | 8.500 | 100,0% |
| 2 | (-) Custo das mercadorias, produtos ou serviços vendidos (CMV, CPV, CSP) | (4.675) | 55,0% |
| 2 | (=) Lucro bruto | 3.825 | 45,0% margem bruta |
| 3 | (-) Despesas com vendas | (1.020) | 12,0% |
| 3 | (-) Despesas gerais e administrativas | (1.360) | 16,0% |
| 3 | (-) Outras receitas e despesas operacionais | (45) | 0,5% |
| 3 | (=) Resultado operacional (antes do resultado financeiro) | 1.400 | 16,5% margem operacional |
| 4 | (+) Receitas financeiras | 120 | 1,4% |
| 4 | (-) Despesas financeiras | (420) | 4,9% |
| 4 | (=) Resultado antes do IR e da CSLL | 1.100 | 12,9% |
| 5 | (-) IR e CSLL | (350) | 4,1% |
| 5 | (=) Lucro líquido do exercício | 750 | 8,8% margem líquida |
No degrau 1 saem os tributos sobre a venda, como ICMS, ISS e PIS e COFINS. No degrau 2, o custo é o que a empresa gastou para produzir ou comprar o que vendeu; no comércio, o CMV é o estoque inicial mais compras menos o estoque final. O degrau 3 reúne comissões, aluguel, folha administrativa e as provisões do período. O degrau 4 traz juros pagos e recebidos, e o degrau 5 os tributos sobre o lucro e, nas S.A., as participações.
Exemplo ilustrativo; IR e CSLL estimados sem adições ou exclusões. O art. 187 da Lei 6.404/1976 lista as despesas financeiras entre as operacionais; aqui o resultado financeiro vem depois do resultado operacional, para separar a operação do efeito da dívida.
A depreciação fica distribuída entre custos e despesas; somada de volta ao resultado operacional, ela leva ao EBITDA.
Como fazer a DRE: seis passos, e a qualidade do resultado depende mais da classificação dos lançamentos do que da conta final
Montar a DRE é somar lançamentos já classificados; o trabalho real está em garantir que cada lançamento esteja no mês e na linha certos.
- 1Defina o período e a competência. Registre receitas e despesas pela data do fato, não do pagamento.
- 2Ligue o plano de contas às linhas da DRE. Uma classificação contábil errada move valor entre custo e despesa e distorce a margem bruta.
- 3Apure receita bruta e deduções a partir das notas fiscais emitidas, descontando cancelamentos, devoluções e tributos destacados.
- 4Calcule o custo do que foi vendido pelo inventário de estoques ou, em serviços, pela mão de obra e pelos insumos apropriados.
- 5Lance despesas, provisões e resultado financeiro, com juros e rendimentos conferidos na conciliação bancária.
- 6Apure IR e CSLL e confira se o lucro líquido da DRE é o mesmo resultado que fecha o balancete.
Como analisar a DRE: no exemplo, as despesas operacionais consomem 28,5 pontos da margem bruta de 45%
A análise de DRE começa pelas margens. A margem bruta (lucro bruto sobre receita líquida) mede o poder de preço e o custo do que se vende; a operacional, quanto sobra depois de manter a estrutura; a líquida, o que fica para os sócios depois de juros e tributos.
Exemplo ilustrativo, com os mesmos números da tabela de estrutura. Escala da barra cheia: 50%.
A distância entre duas margens aponta onde agir. No exemplo, a estrutura administrativa e comercial leva 28,5 pontos, contra 3,5 pontos de juros líquidos e 4,1 pontos de tributos sobre o lucro. Um corte de 10% nas despesas operacionais rende R$ 242,5 mil antes dos tributos, o equivalente a 81% de toda a despesa financeira líquida do ano.
Duas técnicas completam a leitura. A análise vertical expressa cada linha como percentual da receita líquida, como na última coluna da tabela. A análise horizontal compara a mesma linha entre períodos: se a receita cresceu 10% e as despesas administrativas 18%, a margem operacional encolhe mesmo com faturamento maior.
DRE contábil e DRE gerencial partem dos mesmos lançamentos, mas a gerencial sai todo mês e abre o resultado por unidade
A DRE contábil segue a lei e o CPC e serve a sócios, bancos, auditoria e administração tributária. A gerencial usa os mesmos lançamentos num formato definido pela empresa, que pode isolar efeitos não recorrentes e comparar o realizado com o orçamento.
| Aspecto | DRE contábil | DRE gerencial |
|---|---|---|
| Regra | Lei 6.404/1976 e CPC | Definida pela gestão |
| Frequência | Anual por obrigação; nas abertas, também trimestral, pelo ITR da Resolução CVM 80 | Mensal ou semanal |
| Recorte | Empresa como um todo | Unidade, projeto, produto, centro de custo |
| Uso | Prestação de contas e tributos | Decisão de preço, custo e orçamento |
Os modelos de DRE gerencial e os demais relatórios do fechamento estão no artigo sobre relatórios gerenciais.
DRE e fluxo de caixa: uma venda de dezembro com prazo de 60 dias entra no lucro de dezembro e no caixa de fevereiro
A DRE e a DFC (demonstração dos fluxos de caixa) olham o mesmo negócio por regimes diferentes. A DRE responde se a operação dá lucro; o fluxo de caixa responde se haverá dinheiro para pagar as contas na data. A empresa do exemplo pode fechar o ano com lucro de R$ 750 mil e faltar caixa em março, se vendeu a prazo, aumentou estoque ou teve dívida vencendo.
Algumas linhas aparecem só de um lado. A depreciação reduz o lucro e não sai do caixa. A amortização do principal de um empréstimo sai do caixa e não passa pela DRE, que só registra os juros. A compra de uma máquina sai do caixa de uma vez e chega ao resultado aos poucos, pela depreciação. Por isso as duas precisam ser lidas juntas, todo mês.
Como a Paggo ajuda a fechar a DRE gerencial todo mês
Os passos que mais atrasam a DRE são a classificação dos lançamentos e a conferência com os extratos de vários bancos. A Paggo é uma plataforma financeira que reúne os extratos de todos os bancos via Open Finance e se integra ao ERP da empresa: concilia os extratos, liga cada pagamento e recebimento ao documento fiscal e organiza os lançamentos nas linhas da DRE gerencial, por empresa ou centro de custo. A mesma base alimenta a projeção de caixa, para ler resultado e liquidez lado a lado. Os detalhes estão na página de Controladoria.
Perguntas frequentes sobre DRE
DRE é obrigatória para toda empresa?
Para toda sociedade empresária, sim, pelo Código Civil e, nas S.A., pela Lei 6.404/1976. A dispensa vale para o pequeno empresário, na prática o MEI. Empresas do Simples Nacional podem adotar contabilidade simplificada (LC 123/2006, art. 27), mas continuam apurando o resultado.
Qual a diferença entre DRE e balanço patrimonial?
O balanço patrimonial mostra bens, direitos, obrigações e patrimônio líquido numa data. A DRE mostra como receitas e despesas de um período geraram o lucro ou o prejuízo, que depois altera o patrimônio líquido do balanço.
Com que frequência a DRE deve ser feita?
A lei exige ao menos uma DRE anual, ao fim do exercício social. Para gestão, o padrão é a DRE mensal, porque um desvio de margem descoberto só no fim do ano já consumiu onze meses de resultado.
Qual é a diferença entre custo e despesa na DRE?
Custo é o gasto ligado diretamente ao que foi vendido, como mercadoria e matéria-prima, e fica acima do lucro bruto. Despesa é o gasto para manter a empresa e vender, como aluguel e comissões, e fica abaixo dele.
A DRE mostra o EBITDA?
Não diretamente. O EBITDA não é linha obrigatória da DRE; é calculado a partir dela, somando ao resultado operacional a depreciação e a amortização embutidas em custos e despesas.
Como saber se a DRE está correta?
Confira se o lucro da DRE é igual ao resultado do balancete, se a receita bruta bate com as notas fiscais emitidas no período e se juros e rendimentos batem com os extratos conciliados.
Fontes consultadas
- Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.): arts. 176 e 187, demonstrações financeiras e estrutura da DRE.
- Código Civil (Lei 10.406/2002): arts. 1.179 e 1.189, escrituração e balanço de resultado econômico.
- LC 123/2006: art. 27, contabilidade simplificada no Simples Nacional, e art. 68, pequeno empresário.
- Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1): apresentação das demonstrações contábeis.
- Resolução CVM 237/2025: CPC 51 obrigatório para companhias abertas a partir de 2027.
- Resolução CVM 80/2022: art. 31, Formulário de Informações Trimestrais (ITR) das companhias abertas.
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