
O que é fluxo de caixa: o saldo das contas explicado pelas entradas e saídas do período
Fluxo de caixa é a demonstração de todas as entradas e saídas de dinheiro da empresa em um período, organizada para explicar como o saldo inicial das contas virou o saldo final. Para calcular o fluxo de caixa, a conta é simples, saldo final = saldo inicial + entradas − saídas; o trabalho, em uma empresa média ou grande, está no volume: dezenas de contas bancárias, milhares de boletos e Pix por mês e prazos de recebimento e pagamento que não coincidem.
O fluxo segue o regime de caixa: cada lançamento entra na data em que o dinheiro se move, e não na data da venda ou da nota. Uma venda faturada hoje para receber em 60 dias aparece na receita do mês, mas só entra no caixa daqui a dois meses. Essa diferença de calendário responde se haverá saldo para a folha na data e quanto capital de giro a operação consome.
A estrutura do fluxo de caixa separa três atividades, e só uma delas mede a operação
O Pronunciamento Técnico CPC 03 (R2), que rege a Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC), classifica toda movimentação em três grupos. Vale usar a mesma divisão no fluxo gerencial, porque ela separa o dinheiro que o negócio gera do que entra por empréstimo ou sai por investimento.
| Atividade | O que entra no grupo | O que o saldo do grupo indica |
|---|---|---|
| 1. Operacional | Recebimentos de clientes, pagamentos a fornecedores, folha, tributos e despesas | Se o negócio gera ou consome caixa o que mais importa |
| 2. Investimento | Compra e venda de máquinas, imóveis, participações e outros ativos de longo prazo | Quanto a empresa está reinvestindo |
| 3. Financiamento | Captação e amortização de empréstimos, aportes de sócios, dividendos | Como a diferença está sendo coberta |
A leitura que importa é a combinação: um operacional positivo que paga o investimento indica um negócio que se financia sozinho, enquanto um operacional negativo coberto por empréstimo indica dependência de crédito, ainda que o saldo pareça confortável no fim do mês.
O fluxo realizado explica o saldo de hoje; o projetado mostra onde o saldo vai faltar
O fluxo de caixa realizado registra o que já aconteceu e é conferido contra o extrato, lançamento por lançamento. O fluxo de caixa projetado usa a mesma estrutura para o futuro, a partir dos títulos a receber, das contas a pagar aprovadas e das premissas de venda e despesa.
| Critério | Fluxo realizado | Fluxo projetado |
|---|---|---|
| Base | Extratos e conciliação bancária | Contas a receber, contas a pagar e premissas |
| Pergunta | Para onde foi o dinheiro? | Vai faltar dinheiro, quando e quanto? |
| Horizonte | Dia, semana, mês fechado | Semanas a meses à frente |
A comparação entre projetado e realizado mostra quais premissas falham, em geral o prazo médio de recebimento, e corrige a próxima projeção. Para o curto prazo, com atrasos de clientes simulados semana a semana, veja o método do fluxo de caixa de 13 semanas.
Como fazer o fluxo de caixa na empresa: seis passos, do extrato à projeção
Um fluxo de caixa simples em planilha atende a operação pequena. Com várias contas e entidades, o controle e a gestão do fluxo de caixa precisam de regras fixas, porque cada lançamento deve entrar uma vez, na data e na categoria certas.
1
Consolide os saldos iniciais de todas as contas e aplicações de liquidez imediata, por empresa do grupo.
2
Defina as categorias a partir do plano de contas, agrupadas nas três atividades.
3
Lance pela data de liquidação, não pela da nota ou do vencimento, e concilie cada movimento com o extrato.
4
Projete entradas e saídas com as contas a receber, as contas a pagar aprovadas e o histórico de atraso de cada cliente.
5
Fixe um saldo mínimo de caixa e marque as datas em que a projeção fica abaixo dele.
6
Compare projetado e realizado toda semana e ajuste as premissas que erraram.
O passo 3 é o que mais falha: quando o lançamento segue o vencimento, o fluxo conta como recebido um título que o cliente ainda não pagou, e a falta de caixa só aparece no extrato. A conciliação bancária diária é o que mantém o fluxo realizado igual ao saldo do banco.
Exemplo de fluxo de caixa: lucro de R$ 0,8 milhão e queda de R$ 3,3 milhões no saldo no mesmo mês
No exemplo ilustrativo a seguir, uma indústria de médio porte fecha março com receita líquida de R$ 10,0 milhões e lucro líquido de R$ 0,8 milhão na DRE, depois de começar o mês com R$ 4,0 milhões em conta. O fluxo realizado mostra outro mês:
| Fluxo de caixa realizado de março (ilustrativo) | R$ milhões |
|---|---|
| Saldo inicial | 4,0 |
| Recebimentos de clientes | 8,2 |
| Pagamentos a fornecedores | −6,9 |
| Folha e encargos | −1,4 |
| Tributos | −0,9 |
| Outras despesas | −0,5 |
| 1. Caixa das atividades operacionais | −1,5 consome caixa |
| 2. Investimento (compra de máquina) | −1,2 |
| 3. Financiamento (amortização de empréstimo) | −0,6 |
| Saldo final | 0,7 |
Exemplo ilustrativo de empresa fictícia, com valores arredondados. Classificação das atividades conforme o CPC 03 (R2).
A empresa teve lucro e terminou o mês com 17,5% do saldo inicial. O operacional consumiu R$ 1,5 milhão porque R$ 1,8 milhão das vendas de março ficou em contas a receber, o estoque cresceu e fornecedores foram pagos acima das compras do mês. Se a política interna exige R$ 1,5 milhão de saldo mínimo, o fluxo projetado de abril precisa mostrar de onde virá a diferença antes da primeira folha.
Os métodos direto e indireto chegam ao mesmo caixa operacional por caminhos diferentes
O CPC 03 (R2) admite dois métodos para as atividades operacionais (item 18). O método direto lista recebimentos e pagamentos brutos, como na tabela acima, e é o formato que a tesouraria usa para decidir. O método indireto parte do lucro da DRE e o ajusta pelo que não passou pelo caixa, como a depreciação, e pela variação do capital de giro. Investimento e financiamento são iguais nos dois.
Exemplo ilustrativo, mesma empresa e mesmo mês da tabela anterior. Ajustes conforme a lógica do método indireto do CPC 03 (R2).
Na DFC publicada, o indireto leva vantagem porque sai do balanço e da DRE, e o CPC 03 (R2) exige a conciliação do lucro líquido com o caixa operacional mesmo de quem apresenta pelo método direto (item 20A). A Lei 6.404/1976 exige a demonstração das sociedades por ações e dispensa a companhia fechada com patrimônio líquido inferior a R$ 2 milhões (art. 176, §6º). Para gerir o caixa da semana, porém, o indireto chega tarde: explica o mês fechado, enquanto o direto mostra, cliente a cliente e fornecedor a fornecedor, o que vai entrar e sair.
Fluxo de caixa e DRE medem o mesmo negócio em calendários diferentes, e o capital de giro é a distância entre eles
A DRE segue o regime de competência: reconhece receita e despesa quando acontecem, pague-se ou não, enquanto o fluxo de caixa segue o dinheiro. A DRE diz quanto a empresa ganhou; o fluxo de caixa diz quando o dinheiro chega. Por isso indicadores de resultado como o EBITDA não substituem a leitura do caixa.
| Critério | DRE | Fluxo de caixa |
|---|---|---|
| Regime | Competência | Caixa |
| Mede | Lucro ou prejuízo | Variação do saldo disponível |
| Compra de máquina | Entra aos poucos, via depreciação | Sai inteira na data do pagamento |
| Venda a prazo | Receita no mês da venda | Entrada no mês do recebimento |
O capital de giro é o dinheiro preso entre esses dois calendários: estoque ainda não vendido e venda ainda não recebida, descontado o prazo obtido dos fornecedores. No exemplo, R$ 2,4 milhões a mais em contas a receber e estoques e a redução de R$ 0,3 milhão no saldo a pagar, descontada a depreciação de R$ 0,4 milhão que não sai do caixa, levam o lucro de R$ 0,8 milhão a um caixa operacional de R$ 1,5 milhão negativo. Quem cresce vendendo a prazo consome caixa porque cresce, e só o fluxo projetado mostra isso antes do extrato.
Como a Paggo apoia a gestão do fluxo de caixa da empresa
O fluxo de caixa confiável depende do saldo real de todas as contas, da conciliação de cada movimento e de uma projeção alimentada pelas contas a receber e a pagar, informações que costumam estar espalhadas entre planilha, ERP e portal bancário. O papel da tesouraria é reunir essa visão.
A Paggo é uma plataforma financeira que conecta o ERP da empresa aos bancos. A tesouraria da Paggo mostra o saldo de todas as contas em uma única tela via Open Finance, recebe os extratos para a conciliação e projeta entradas e saídas para controlar o caixa de curto prazo. Na mesma plataforma, as contas a pagar seguem fluxos de aprovação e a controladoria acompanha os resultados gerenciais.
Perguntas frequentes sobre fluxo de caixa
Quais são os tipos de fluxo de caixa?
Além do realizado e do projetado, há o fluxo de caixa operacional (só a atividade 1), o fluxo de caixa livre (operacional menos investimentos, o que sobra para credores e sócios) e o fluxo de caixa descontado, que traz fluxos futuros a valor presente na avaliação de empresas.
Qual a diferença entre fluxo de caixa e controle de caixa?
O controle de caixa, ou movimento de caixa, é o registro diário das entradas e saídas. O fluxo de caixa organiza esses registros por atividade e os estende para o futuro.
Com que frequência o fluxo de caixa deve ser atualizado?
O realizado, diariamente, junto com a conciliação bancária. O projetado, ao menos uma vez por semana, com revisão das premissas de recebimento; com saldo apertado, vale a projeção diária dos próximos 30 dias.
A DFC é obrigatória?
Pela lei, sim para as sociedades por ações, salvo a companhia fechada com patrimônio líquido abaixo de R$ 2 milhões. Pela Lei 11.638/2007 (art. 3º), as sociedades de grande porte, com ativo total acima de R$ 240 milhões ou receita bruta acima de R$ 300 milhões no ano anterior, seguem as mesmas regras, ainda que não sejam sociedades por ações. Para as demais empresas, as normas contábeis do CFC para pequenas e médias empresas também incluem a DFC no conjunto completo de demonstrações. O fluxo gerencial não é exigido por lei.
Como se diz fluxo de caixa em inglês?
Cash flow. A DFC corresponde ao statement of cash flows da norma internacional IAS 7, da qual o CPC 03 (R2) é a versão brasileira.
Qual saldo mínimo de caixa a empresa deve manter?
Não há percentual fixo. Uma referência prática é cobrir folha, tributos e parcelas de dívida do período em que as entradas costumam atrasar, mais o desvio histórico entre recebimento projetado e realizado.
Fontes consultadas
Pronunciamento Técnico CPC 03 (R2): Demonstração dos Fluxos de Caixa (correlação com o IAS 7), texto disponibilizado pela CVM.
Lei 6.404/1976: demonstrações financeiras das sociedades por ações, art. 176, inciso IV e §6º.
Lei 11.638/2007: extensão das regras de demonstrações financeiras às sociedades de grande porte, art. 3º.
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